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01 jul |
Corpos em suspensão |

Fotos: Inês Corrêa, especial para Flutuante
O novo espetáculo assinado por Letícia Sekito, Flutuante, é o seu primeiro trabalho coletivo onde agora, além de dançarina e coreógrafa, é também diretora. Flutuante explora a incomunicabilidade dos corpos fluidos à procura de erotismo.

Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai.

Peter Greenaway e gravuras Ukiyo-e são referências no trabalho
O espetáculo começa com o desenrolar de um enorme papel com vestígios de traços orgânicos, dinâmicos, como as ondas do mar. E é como as ondas que o papel dança nas mãos dos dançarinos. Esse papel, que é um suporte para as nossas expressões mais íntimas, como em secretos diários ou tórridas confidências em cartas que nem sempre chegam ao destino, esse mesmo papel, – vejam só – , pode ser o palco de exacerbadas explosões em arte. O silêncio das fibras é também o território das grandes emoções.
O papel onda, que vira papel palco atinge dimensão cosmogônica, no momento em que se instala ao fundo. De papel confidente passa a ser papel testemunha dos corpos que se encontram e se desencontram, como papéis trocados, como destinos cruzados.
Corpos vagueiam sem se encontrar e mesmo se encontrando, sem se comunicar. Que corpos cruzados são esses que murmuram frases desconexas e cantarolam sem ser felizes? Que corpo é esse que abre o fruto para liberar o seu cheiro, como a mostrar o ventre vazio de uma noite sem fim?

Corpo líquido, como na Grande Onda de kanagawa, de Hokusai
Aliás, a noite que revela os corpos. É o que o escritor Jun-ichiro Tanizaki descreve em “Em Louvor da Sombra” : “… mundo de sonho construído pela estranha luz de uma vela ou de uma lâmpada. Dessa fonte vacilante reacendem as pulsações da noite. O papel japonês traz ao anoitecer, as reminiscências da luz armazenadas durante o dia, para então libertá-la na alvorada, quando escapa a escuridão…”.

Pois é exatamente nessa dimensão da noite, da penumbra que surge a luz que sugere, que denuncia, que se insinua, e que anuncia. Pelas frestas, pelas entranhas, pelas fibras, pelas febres. E pelos corpos. Quando fibras e febres se convergem, papel e pele se juntam e se confundem. Se amassam, como se amassem.
Talvez por isso, surge esta proposta da fusão dos corpos. De um lado, a luz que prende e surpreende: fibras vegetais que emergem do ventre da terra e se transformam, de suporte a objeto. De outro, a luz que revela o sobrenatural escondido por detrás do desejo e das paixões contidas. Corpos à espera de uma luz. A mesma luz azul, a do luar, que reacende as paixões, dilacera agora ao alvorecer, os corpos, que se dissolvem como areia fina. A luz que revela e denuncia, a luz que suspira, mas que também assassina, é a luz que nos guiará pelos labirintos fluidos dos entre-corpos que buscam desesperadamente o encontro que nunca virá.
E aqui, o texto que a pesquisadora de cinema Marcela Canizo assina, para introduzir aos conceitos deste espetáculo.

“Seguindo as ‘pegadas-camadas’ das gravuras japonesas do período Edo, fomos conhecer o universo do bairro dos prazeres, descobrindo nessas imagens do cotidiano, uma forma de comunicação sutil e delicada, inspirada nos sons, nos cheiros e nos movimentos da natureza. Cada uma dessas camadas foi-se gravando na nossa memória, e assim, igual aos ciclos – sempre iguais, sempre novos – da natureza, criamos um universo de gestos, movimentos e sentidos que trazem junto essa memória e essa vivência – sempre antiga, sempre nova – do mundo do erotismo e do desejo.”

As Cinco Mulheres, de Utamaro
Serviço:
Espetáculo FLUTUANTE
Concepção e direção: Leticia Sekito
Performance: Alex Ratton, Leticia Sekito, Priscila Jorge
Realização: Companhia Flutuante
5 a 7 de Julho, às 20hs na Sala de Ensaio do TUCA (Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes)
Gratuito. No dia 5 de Julho, bate papo com Marcela Canizo e lançamento do making of de Cynthia Domenico após o espetáculo.
Acompanhe no site da Companhia Flutuante, o making of deste espetáculo.
Veja no blog da fotógrafa Inês Corrêa, Corpoemimagem, o bonito ensaio fotográfico do espetáculo
Teaser criado por Cynthia Domenico
Oi, Jo!
Muito bom ter a oportunidade de ver você abrindo outras camadas na sua leitura do espetáculo!
O papel que tem um lugar especial na cultura japonesa, entrou desta forma no espetaculo para sugerir sensações. Gostei do seu olhar.
Sabe uma curiosidade? Há um tempo atrás eu dei para a Ligia Chaim o livro do Tanizaki, Em louvor as sombras e não fizemos nenhuma leitura intensiva, mas foi uma referência para a luz. Bem curioso você ter feito esta menção. :0)
Obrigada pelo compartilhamento,
Leticia Sekito.
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